24/10/2018

I.

Vai saber de quem se quer a-
mor. Alguém, na solidão dos
prédios vizinhos, pode não es-
tar interessado em

contem-
plar o voo dos
pássaros.

II.

Não há mais pássaros para se-
rem  contemplados. Não existe a-
mor no  RJ. Há pólvora. Há uma turba em
polvorosa. Mensagens, mensagens –
nada a di-
zer.

Há um gozo lou-
co e  voluptuoso – que não goza. Ou
melhor, que não inclui o ou-
tro. O tal do próxi-
mo.

Vai saber de quem se quer amor.

III.

Ainda há alguns pás-
saros. Tiês-sangue. An-
dam taciturnos, mas nu-
trem gran-
des

expectativas.

IV.

Em tempos como es-
se, nenhuma beleza po-
de ser desperdi-
çada.

Nota: nunca mais re-
clamar do

barquinho.

V.

Da janela, observando os
que possivelmente ob-
servam, percebe-se a a-
proximação da tem-
pestade.

Mas ainda há dis-
posição pra virar a
chave em que se 
dá o

trágico.

Ainda se pretende a-
garrar com as mãos as
águas da tem-
pestade. As fú-
rias pal-
páveis. Es-
pasmos e ran-
ger de den-
tes

não nos representam.

VI.

A fissura encon-
tra-se a uma pro-
fundidade que se me-
de em quilômetros e
mais quilômetros –
digna de u-
ma Fossa das

Marianas. Digna de u-
ma fos-
sa. 

VII.

Somos seten-
ta e cinco por cento á-
gua – por vol-
ta disso. 

O fluxo até que
poderia se dar de u-
ma for-
ma, 

talvez, mais 
natural. Só que
não. Não é as-
sim.