02/05/2013





Eu – era todo mãos, boca, dentes. O sol passava por sobre nossas cabeças. Eu mastigava, mastigava como ruminante. Como um roedor, mamífero, quis algo mais. Comecei então a cavar, encontrei um líquido negro, pretume de morte: os séculos. Me fartava com a avidez de quem não pode ver além. Sorvia, até que me dissolvi naquilo.

Quis ser.

Plástico, me travesti,
passei a usar petit pois.

Seria a própria Barbie.

Me chamo Lukyanova. A propósito,
dispus de minha parcela de notoriedade

quando noticiaram,
certo dia:

Beleza não tem fim, embora a pujança metabólica arrefeça em parte no que o escape do que é teso, memória do corpo. Para Valeria Lukyanova é todo um projeto que demanda alcunhas e alvoradas, crepúsculos em dias nublados. É cristalino que o make up esmerado ajuda e muito no efeito Barbie que se pretende, mas o inexpressivo do plástico é um desafio e tanto pra quem desfruta uma cartela com mais que sessenta hormônios em plena atividade, ainda mais nessa fase. A humanidade vai mesmo bem avançada no que diz respeito ao estigma dessa paixão robótica. Quem sabe o pet perfeito pra Lukyanova não fosse um protótipo que tenha participado do concurso de dança em Zhejiang, leste da China? Ela merece o melhor. Quem sabe o vencedor? O número foi uma versão ternamente desajeitada da coreografia do Gangnam Style, a cavalgada-em-calça-capri. Tudo ternamente desajeitado. Voz baixa é a que não marca.

Lukyanova quer se alimentar de prana. Não seria mesmo de espantar, pois diz-se filha das Plêiades, que na Amazônia é Ceuci, mãe de Jurupari, e sabe-se de algum parentesco deste último com o Sol. Jurupari recebeu a missão de ser o legislador, recebeu também um matiri, com tudo que pudesse ser ferramenta. Vai que é de família, então Lukyanova poderia cumprir até certa função messiânica. Aí seria como diz a outra loura, Courtney Love, dos cumes da histeria e da paixão: I fake it so real, I am beyond fake. Mentira é o tempero da verdade.

Sim, o futuro é luminoso, daí supõe-se a luz finalSe considerarmos a possibilidade da situação alardeada por lunáticos e astrônomos (heliocêntricos), ambos apontando a extravasão futura do astro-mor, tem- se que o mote passa a literal.

Sendo assim, alguém certamente há de travar o seguinte monólogo / diálogo:

– Está triste?
– É o amor que não lhe assiste.