Era tudo o dia-a-dia. Quem não
sentiu a leve carga elétrica do planeta, ao
plantar o pé no chão, perdeu-se
no rame-rame.
Havia alguma previsibilidade,
alguma forma de sincronizarmos nossa
respiração. Não deixa de haver
caminhos.
Mas titubeamos com certa regularidade, nos
aturdimos com o sexo dos anjos e com o pelo no
ovo. É espantoso que só então pudemos
concluir que o amor deve ser
maior, cósmico, infinito.
Tudo estava ali, como
sempre esteve, como
está a-
qui.
Mas conteúdos alienígenas se in-
filtraram entre nós. Loas às ins-
tituições. Boas festas, nada
mais.
Sim, teve até cerimônia oficial,
deferência, aparato. Só não
contávamos com a
hipótese de que
fosse tudo
forjado
por
razões. Pasmem, razões. Seria
redundante qualificá-las como
questionáveis. Razões. Tão dóceis
que tudo legitimam. Tão duras
que decretam o
não.
Mas o desejo resiste. Que a a-
tenção também esteja nos interstí-
cios que revelam haver muito
mais do que imaginamos
no desfile tragi-
cômico
dos
dias.
Que os gestos as-
pirem à
poesia.
Tudo se
cria.