26/09/2023

Era tudo o dia-a-dia. Quem não 

sentiu a leve carga elétrica do planeta, ao 

plantar o pé no chão, perdeu-se 

no rame-rame. 


Havia alguma previsibilidade, 

alguma forma de sincronizarmos nossa 

respiração. Não deixa de haver 

caminhos. 


Mas titubeamos com certa regularidade, nos 

aturdimos com o sexo dos anjos e com o pelo no 

ovo. É espantoso que só então pudemos 

concluir que o amor deve ser 

maior, cósmico, infinito. 


Tudo estava ali, como 

sempre esteve, como 

está a-


qui.


Mas conteúdos alienígenas se in-

filtraram entre nós. Loas às ins-

tituições. Boas festas, nada 

mais.


Sim, teve até cerimônia oficial

deferência, aparato. Só não

contávamos com a 

hipótese de que

fosse tudo 

forjado 

por


razões. Pasmem, razões. Seria 

redundante  qualificá-las como 

questionáveis. Razões. Tão dóceis 

que tudo legitimam. Tão duras 

que decretam o 


não.


Mas o desejo resiste. Que a a-

tenção também esteja nos interstí-

cios que revelam haver muito 

mais do que imaginamos 

no desfile tragi-

cômico 

dos 


dias. 


Que os gestos as-

pirem à 


poesia


Tudo se 

cria.

22/09/2023

Incerteza. Incerteza. Repetir a 

palavra até que ela perca o sen-

tido,


que se decomponha em sons, perfis 

gráficos, histórias, contingên-

cias,


convenção. 


Até que a própria ideia se 

torne absurda, tão somente 

pelo fato de que seu oposto é 

pura


ficção. 


Que esse olhar espantoso traga

um quê cúmplice e despudorado 

das verdadeiras amizades. 


Somos carne, ossos, 

pele, devir,


pretensão.