14/12/2017

I.

Imagem de outro tempo.

A televisão desligada e-
mite ruído branco. Catalepsia.
Catástrofe. Alguma anti-
matéria seria até mais
do que necessária.

Na tecitura do som, restos
de frequências que vêm
de longe.

A sala de estar, caverna que es-
queceu o que é ser – nem que fos-
se por pura pretensão –

interior.

II.

Saímos então para uma
caminhada que não terá
rumo algum. A parede cons-
tante, envidraçada e bem
polida, reflete nosso
deslocamento.

Ali está o fantasma, mas se
tentamos surpreendê-lo, se
pretendemos ludibriar o reflexo,
ele desaparece i-

mediatamente.

III.

O espanto de perceber que
pretendemos um ser que
nunca é algo além – entidade
subtrativa, nunca mais
que a promessa de alguma
coisa realmente signi-
ficativa.

O norte.

Mas a linha, que bem poderia ser
do tempo, criava um sulco no
papel. O gesto de apagar
deixava marcas.

Era possível guiar-se
no escuro –

quem sabe de si.

IV.

Saber-se o nó, aquele
que chamamos górgio, talvez
tomado pelo avesso. O  que não
seria a página intocada, o
percursoem direção ao
branco – onde tudo
foi escrito, onde
não há

nada.

Mas bem poderia haver um fato,
acontecimento discreto, as-
sim como descomunal – seria al-
go mais. Quem sabe outro dos
avatares da cegueira

branca.

V.

Branco também é cor
de luto em um tempo saturado
pela presença – forma o-
blíqua de es-

quecimento.