I.
Imagem de outro tempo.
A televisão desligada e-
mite ruído branco. Catalepsia.
Catástrofe. Alguma anti-
matéria seria até mais
do que necessária.
Na tecitura do som, restos
de frequências que vêm
de longe.
A sala de estar, caverna que es-
queceu o que é ser – nem que fos-
se por pura pretensão –
interior.
II.
Saímos então para uma
caminhada que não terá
rumo algum. A parede cons-
tante, envidraçada e bem
polida, reflete nosso
deslocamento.
Ali está o fantasma, mas se
tentamos surpreendê-lo, se
pretendemos ludibriar o reflexo,
ele desaparece i-
mediatamente.
III.
O espanto de perceber que
pretendemos um ser que
nunca é algo além – entidade
subtrativa, nunca mais
que a promessa de alguma
coisa realmente signi-
ficativa.
O norte.
Mas a linha, que bem poderia ser
do tempo, criava um sulco no
papel. O gesto de apagar
deixava marcas.
Era possível guiar-se
no escuro –
quem sabe de si.
IV.
Saber-se o nó, aquele
que chamamos górgio, talvez
tomado pelo avesso. O que não
seria a página intocada, o
percursoem direção ao
branco – onde tudo
foi escrito, onde
não há
nada.
Mas bem poderia haver um fato,
acontecimento discreto, as-
sim como descomunal – seria al-
go mais. Quem sabe outro dos
avatares da cegueira
branca.
V.
Branco também é cor
de luto em um tempo saturado
pela presença – forma o-
blíqua de es-
quecimento.