I.
Cornucópia é corno ao revés, fora de combate, recheado de insumos.
Cornucópia é avó distante da corneta, voz no além.
Cornucópia como entremeio entre impulso e o que não se vê, fértil e viril
sua assunção.
Cornucópia como lembrança da ameaça constante da cabeçada.
Quando alheia à cornucópia, cabeça passa a outras funções, mais
sinuosas, duvidosas.
Hoje, quando mais cabeça, passo aéreo, chão distante. Céu
cantando, voz tão doce, Vagarosa. Assim tropico,
peco,
tropeço.
Uma vez alçado, ao chão. Caio, splash, o que
surpreende. Água salgada e inesperada, a-
lém de seus domínios. Fosse apenas maresia, sol nos trópicos, até
relaxaria.
Torpor até. Mas não durou o devaneio. Quando me dei conta do que era
de fato a maresia, ao meu redor, tudo que havia ameaçava perecer. Oxidando,
tudo corroendo aos poucos. O que de ferro, não mais inquebrantável.
Resta um não lugar, onde não situar nada,
nada. Resta um Reator no peito, presença abstrata de um
ciclo mas, por hora, afasto o que há de mito, o que ad-
mito no divã.
Estanco o passo e lanço a
plenos pulmões um im-
propério. Bato o excesso de poeira que
trajava.
Sigo em plena quarta-feira, civil, nome e sobrenome registrados.
Não passa nada. Tempo, que não se refaz,
se faz, de novo e de novo.
II.
Por falta de parâmetro, resgato técnica antiga de medição, que
não diria cronológica. Medito o que prossegue numa clepsidra, que
pelas convergências motores, por evidenciar a liquidez do tempo,
por se dispor à repetição, de lá pra cá,
de lá pra cá, serve ainda à finalidade.
Relógio d'água
evidencia a resiliência, não do tempo. Água toma forma e
toma outra e assim passa como várias outras matérias nem sonhariam em
fazê-lo. Isso é tema que ninguém sabe.
A bem dizer, hora passar, nunca ninguém viu, só no que ex-
terior. Tempo espesso em que tudo pas-
sa em que percebe-se a plasticida-
de do ar, outro elemento, ainda a
conduzir o estertor, melhor que a água.
Elementos, tão solitários.
III.
Entrever o entrevero seria aceitar a opacidade.
Em seus olhos, vidro fosco, seu olhar teve a duração do chiste, a
pairar solene. Disse tanto, aquele olhar de quem percebe a lobotomia silenciosa
atrelada aos anos de pequenos luxos, beijinhos,
chamegos.
Sobre os córtices, sobre o que podem fazer, acumulamos ao longo do tem-
po uma série de ceceios. Tudo é função do tronco, tudo é desdobramento
das funções elementares, respeitando a filiação. Esse é justo o tanto que
se compartilha com todos outros mamíferos. Começo então a farejar.
Eu, Momo, lhe ofereci uma gargalhada,
como quem troça, como quem diz com sua boca suja,
pau duro e xota inchada é tudo vascularização,
tudo tem origem nos progenitores hematopoéticos.
Na deixa, indaguei: quem és tu? Agora, medito nisso.
Espanta a prepotência da questão.
IV.
Sofríamos a vontade, isso era tudo. Nenhuma quintessência quimérica iria
resgatar-nos. Dia dos que passam, quando fábula e fato se autoanulam, vorazes,
na faena. Quando já adiantado o rito da tourada, sobrevém as estocadas.
Se torna necessário inverter pra além do açúcar.
V.
Depois, meditação. Só a parcimônia irresoluta do
voyeur, só isso poderia me safar, a obstinação que faz o
voyeur projetar intimidade no que estranho, acrescendo as-
sim literalidade ao tipo de troca oblíqua que então se dá,
afeto que nem sempre se quer.
Tudo o que vem daí, todo o vai-não-vai, interrogação não
falta. Me torno algo aflito, algo alheio. Como resultado, um espelho se parte em
sonho. Peso a tradição nas loas do desprezo, nas investidas involuntárias do
signo.
Qual é o momento em que se pode desconhecer? Inverter muito mais
pra além do açúcar, arte complementar que se demanda ao
ler estrelas em dia nublado.
VI.
Foi quando aquela mão quente pousou sobre a minha, engano que a-
calenta. Haveria redenção? Ela tinha cabelo vermelho,
não se poderia dizer ruivo, jaqueta vermelha.
Sorria. Perguntou sobre a confusão do tchau e do te amo em
certos sotaques, dicções. Pura anilina.
VII.
Tempo, que não se refaz,
se faz, de novo e
de novo.