24/05/2023

I.

Um bloco de gelo num

super refrigerador. Em seu

interior, uma esfera que

gere seu próprio

calor.

 

Incandescente.

 

II.

Mas indecente é o que não

se dá por civilizado. Quis não

ser visto. Uma forma de que-

rer-me algo aquém do or-

gânico.

 

Esqueci como se pretende

natural vestir as

máscaras que os

homens nos

dão.

 

Pois é nos momentos

de prazer que o tempo

parece passar mais

rápido.

 

Escorrego  renasce o

ventre. Útero que se perpetua

desgraçada-

mente.

 

III.

Deslocar-se na água é

quase um voo. Antes fos-

se. Antes não sufocas-

se.

 

Então reparo nas cantilenas

que as pessoas deixam

escapar nos momentos

de maior distração.

 

Melodia das entranhas.

 

Sangue que o-

xigena pode também o-

xidar. 

Estou a um passo do con-

ceito. Momento. Quando es-

capa a própria pos-

sibilidade de

tradução.

 

Resolvo então ou-

vir música, enquanto o ar-

co e a corda não se afas-

tam – se não fis-

sura, façanha. Cri-

var intervalos.

 

O plano é simples. Suspen-

der provisoriamente a

vertigem de existir. Tudo são

saberes de outro mundo – o

que se passa do lado de lá

da janela. Um

 

portal. Só sei da chuva pelo

cheiro, certa umidade.

Na fruição de acordes e ar-

pejos, ser um pouco mais

do tempo. Ser um pouco

menos.

 

Sob a marca perene, viver –

das mais banais mani-

festações do

 

mistério. Viver –

entre o mínimo

existencial e a

reserva do

 

possível.

 

Hei de velar o que já

foi e o que ainda

resta faltar.

 Pode-se encontrar paz no

deserto, bem longe do

litoral,

 

onde todos os barcos ar-

dem em chamas. Que todo o

comércio de afetos

 

seja passado.

 

Só então haverá algo de

literal, a vida desprovida de

badulaques.

 

Que os achaques do

desejo fiquem também

para trás.

23/05/2023

O que me acalma é

teu cheiro, por razões

algo misteriosas.

 

Um saber inteiro,

que se dá com a

generosidade da

língua

 

materna.

 

Ainda que haja proparo-

xítonas e mal-

entendidos.

 

Nenhuma gramática basta

para explicar o desejo

de não estar mudo –

 

sem a interlocução

do amor. Mas a palavra

foi dura como as

pedras,

 

calou o querer. Muito da

felicidade. Antes fosse

montanha.