20/04/2018

De repente, tudo fica mais rápido, tudo é risco. Chocar-se violentamente contra a parede pode ou não ser literal. Preso entre as ferragens do tempo, entre o que já foi e o que ainda não é. Como é que se faz pra deixar o que quer que seja pra trás? Digo, sem que isso aconteça pelas leis do movimento, mas pelo choque. O tempo presente, inapreensível, escapa como um tipo de areia que não compõe os retiros na praia. Certo é que ninguém poderia saber no que tudo isso acabaria. Sabe? Quando uma coisa não é só uma coisa, mas é essa coisa. Você não sabia ainda no que tudo aquilo acabaria. Não haveria mesmo como sabê-lo.  Ainda nem havia começado a inscrever/escrever a história. Trata-se de toda uma confusão na linha do tempo,  nas funções da narrativa,  nas possibilidades do saber,  nas relações afetivas, no conteúdo mais íntimo do que não sou. Ou seja, em absolutamente tudo em que pode haver qualquer tipo de confusão. Não que a errância represente uma opção meramente pelo estilo. Devo confessar, não é. Tampouco me importa o groove, a essa altura. Como saber quem eu quero que eu seja? Formular o devir não poderia nunca ser da minha conta. Falta em mim a competência, a prudência, a perícia, todos os pré-requisitos. Talvez a autoconsciência, também. Nunca foi o meu forte. Será que tons de azul poderiam mesmo nos redimir? Não, não, não seria possível, seria completamente implausível Mas o carro havia partido há um tempo que apreendi como denso, compacto, sufocante. Ainda havia resquícios daquela presença por toda parte. Havia uma sombra que, como toda sombra, não deixa de ser um conforto. Dificilmente aqueles resquícios deixariam de persegui-lo. Ao menos, não por toda a eternidade do momento presente. Era também o aroma característico que ainda pairava no ar. Provavelmente, os vestígios inefáveis de um corpo muitíssimo desejado. Como pode ser que não estivesse? Mas não estava. Não estava. E agora eu fico com essa cara de a little more blue than then. Vá lá, não chegava a ser nenhuma grande novidade, nada significativo, é preciso reconhecer. Teria sido a TV que fez isso comigo? Os primeiros anos, quando a Xuxa e o Fantástico provocavam danos silenciosos na minha constituição psíquica. Mas o pior é que não saberia dizer desde quando, ou mesmo como foi que tal estratificação tomou lugar. Há sempre um padrão, diriam eles.