fosse o que é. Não fosse. Mas há a sensação
de.
A vida adulta e seus desencantos, em
tempos de ghosting e mindset. Mas vamos
fazer um dengo, deixa eu te dar
cafuné.
Aí aos poucos, talvez de modo in-
termitente, haja algum brilho. Não os
fantasmas que contaminam o lago
do pensar,
que turvam o reflexo de tudo
em tudo, a conexão. Porque tudo
dança. A música é da
natureza.
Se perdemos isso de vista, o
resultado é uma bagunça absoluta,
uma gangorra, muvuca
de afetos.
Mas há o mar.
O amar há de vez em
quando. Vaivém, num movimento
pendular. Porque a dualidade é um
dos aspectos.
Pele alva, pele alvo.
De tempos em
tempos, um
banho de
sangue.
De sangue. Ninguém
mais pode ser
salvo. Cidade
macabra, mata por
matar.
Pele alva,
pele al-
vo. Que gente
é essa, meu Deus.
Ou melhor, que Deus é es-
se.
Sangue não
pode lavar.
Sangue só
faz sujar mais.
Espere a
vingança. A
vingança da
vingança. As-
sim segue a vi-
da.
Assim cessa
a vida.
Sangue não
pode lavar. É
com água que se
lava, es-
cadarias da
Penha.
Com água.
Só o fato de a vida ser inexoravelmente
pra frente –
só o gosto de usar essa
palavra –,
não sei, assusta.
Encanta.
Há um
equilíbrio muito delicado que
podemos,
talvez, desenvolver com a
imensidão.
Não imergir.
O mar, a
gente contempla, mas
quem sabe
prefira umidades mais
de cantos
suspeitamente
pouco
ensolarados.
Sim, eu sei
que é desaconselhado
usar muitas
vezes esse tipo de advérbio,
fica
cansativo. Mente, mente,
mente.
Quem mente?
Nem quem intenciona
fazê-lo
logra alcançá-lo. A vida sempre
revela que
somos nós parte de um roteiro
maior,
ou da
ausência desse.
Escreva sua
história, vai. Bom
esperar
sentado o retorno do
real.
Que delícia
a grandiloquência
aguada de
usarmos conceitos que
passamos
longe de compreender.
Amor. Eu te
amo. Quantos abismos
pode haver numa
declaração tão prosaica,
tão
pedestre.
Caminhar na
suspensão da mente.
Suspender o
caminho da mente. É só o que há,
o que é
tudo. Fico mudo,
contemplo.
O horizonte
é uma miragem,
sua retidão
escapa. Vale seguir
na busca?
Sei não.
Nas sombras, na encolha,
silen-
ciosamente constituído.
Quando menos
se percebe, são suas
próprias mãos
a esganá-lo.
mundo afora. O segredo que
ser
quer mal guardado – não
estamos seguros.
A terra é de quem pode –
ou
explode. Metástase
maléfica. A
cobra se alimentando de si
mesma. Dis-
sídio. Divergência.
Maniqueís-
mo plasmado no prefixo
renitente. Fazer dois é
forçar um – nesse
caso. Que o outro
desapareça.
Mas somos todos o outro do
ou-
tro. Tumor que se es-
praia.
Primeiro, o quintal.
Depois, a
sala. Como se fosse
história de Cor-
tázar.
Logo chega ao
quarto –
coração.
Que pulsa.
Pulsa.
Era tudo o dia-a-dia. Quem não
sentiu a leve carga elétrica do planeta, ao
plantar o pé no chão, perdeu-se
no rame-rame.
Havia alguma previsibilidade,
alguma forma de sincronizarmos nossa
respiração. Não deixa de haver
caminhos.
Mas titubeamos com certa regularidade, nos
aturdimos com o sexo dos anjos e com o pelo no
ovo. É espantoso que só então pudemos
concluir que o amor deve ser
maior, cósmico, infinito.
Tudo estava ali, como
sempre esteve, como
está a-
qui.
Mas conteúdos alienígenas se in-
filtraram entre nós. Loas às ins-
tituições. Boas festas, nada
mais.
Sim, teve até cerimônia oficial,
deferência, aparato. Só não
contávamos com a
hipótese de que
fosse tudo
forjado
por
razões. Pasmem, razões. Seria
redundante qualificá-las como
questionáveis. Razões. Tão dóceis
que tudo legitimam. Tão duras
que decretam o
não.
Mas o desejo resiste. Que a a-
tenção também esteja nos interstí-
cios que revelam haver muito
mais do que imaginamos
no desfile tragi-
cômico
dos
dias.
Que os gestos as-
pirem à
poesia.
Tudo se
cria.