A noite traz
insetos em seu bojo. A noite traz a orquestra de estalidos, rangidos
e fricções que anuncia a escuridão, por sua vez, imagem
arquetípica da esfera de alteridade onde o sono repousa através dos
séculos. Entro em seu domínio. Passo pelo que se concebe como live
action dolphins que abanam suas caudas para levantar uma barreira de
lama como armadilha para peixes desavisados. Uma só lufada e babau,
foi-se tudo. O crescente da náusea é das dez ao meio-dia, tanto que
acordo. O azul toma de assalto a tela do computador, um erro de azul
tão peremptório quanto o azul do céu, distante e misterioso. Mas
pra onde? Um bar, não dos piores. Chega um sujeito e lança de
pronto. Desce uma Sukita! Ao que o barman contesta amavelmente. O
estabelecimento tem apenas um pavimento, senhor. O homem acendeu um
cigarro para evitar o cheiro das coisas. Uma carpideira veio
diretamente de Taiwan para chorar o morto. Ela acabara de realizar o
famoso número dos passos-acrobáticos-em-roupas-coloridas quando seu
irmão tomou postos ao órgão, que fora de seu pai, falecido na
guerra. O instrumento começou a soar encorpado como de costume, a
carpideira surgiu vestida de branco para realizar o choro mais
conhecido.
O que pode o
indivíduo quanto à sorte?
O homem disse
que aquele timbre o incomodava, era um fio de cabelo em seu chiclete.
Soltou-se num espirro antecipado por um urro de moribundo. Ô rapaz,
ouve essa, o cara juntou dinheiro a vida inteira pra comprar um
jazigo! Morou de aluguel! Um dia foi buscar umas coisas na padaria e
pum, um carro pegou ele. Era novo naquela vizinhança, ninguém soube
reconhecer. Era só, ninguém deu por ele. Foi enterrado como
indigente! O jazigo? Já tava pago mais do que pela metade.
Um cachorro
latia pro nada do lado de fora.
Saiu a caminhar
focado no procedimento metabólico que se operava em seu organismo.
Distraiu-se com uma concentração tenaz. Tudo ou, mais exatamente,
todos se escafederam de uma hora pra outra ou, mais exatamente ainda,
num estalo despercebido. Assustou-se pois não era mais do que quinze
pras quatro numa quinta-feira em Copacabana. Nem é preciso explicar
que é como se o desinteresse num primeiro momento tivesse feito o
que, antes ignorado, se ausentasse de fato. Caminhou, caminhou e
nada. Da amígdala então fez-se o medo. Seu nome era Carlos Alberto,
conhecido por Dois, sendo Carlos Alberto, o pai, o Um, embora ninguém
o chamasse por tal. Ouviu certo dia uma criança perguntar por um
boneco pelado deitado num x. A criança tomou um tapa para deixar de
ser atéia. Dois testemunhou ainda outra do cara da Sukita. Ô rapaz,
ouve essa, a coisa mais certa é o tesão no shortinho. Se justo,
vê-se o talho do monumento, se folgado, a polpinha da bunda. Dois
havia suportado um sono inquieto de bicho grande exposto a
borrachudos. Cochilava intermitentemente em pleno balcão de bar, o
que desapontou tremendamente o cara da Sukita. Esse cara, que era ele
mesmo, pegou seu carro e saiu a buzinar uma buzina abstrata, que não
era pro motorista da frente, que não se dirigia ao pedestre, mas ao
sistema. O maldito sistema.