Eu – era todo mãos, boca, dentes. O
sol passava por sobre nossas cabeças. Eu mastigava, mastigava como
ruminante. Como um roedor, mamífero, quis algo mais. Comecei então
a cavar, encontrei um líquido negro, pretume de morte: os séculos.
Me fartava com a avidez de quem não pode ver além. Sorvia, até que me
dissolvi naquilo.
Quis ser.
Plástico, me travesti,
passei a usar petit pois.
Seria a própria Barbie.
Me chamo Lukyanova. A propósito,
dispus de minha parcela de notoriedade
quando noticiaram,
certo dia:
Beleza não tem fim, embora a pujança
metabólica arrefeça em parte no que o escape do que é teso,
memória do corpo. Para Valeria Lukyanova é todo um projeto que
demanda alcunhas e alvoradas, crepúsculos em dias nublados. É
cristalino que o make up esmerado ajuda e muito no efeito Barbie que
se pretende, mas o inexpressivo do plástico é um desafio e tanto
pra quem desfruta uma cartela com mais que sessenta hormônios em
plena atividade, ainda mais nessa fase. A humanidade vai mesmo bem
avançada no que diz respeito ao estigma dessa paixão robótica.
Quem sabe o pet perfeito pra Lukyanova não fosse um protótipo que
tenha participado do concurso de dança em Zhejiang, leste da China? Ela merece o melhor. Quem sabe o vencedor? O número foi
uma versão ternamente desajeitada da coreografia do Gangnam Style, a
cavalgada-em-calça-capri. Tudo ternamente desajeitado. Voz baixa é
a que não marca.
Lukyanova quer se alimentar de prana.
Não seria mesmo de espantar, pois diz-se filha das Plêiades, que na
Amazônia é Ceuci, mãe de Jurupari, e sabe-se de algum parentesco
deste último com o Sol. Jurupari recebeu a missão de ser o
legislador, recebeu também um matiri, com tudo que pudesse ser
ferramenta. Vai que é de família, então Lukyanova poderia cumprir
até certa função messiânica. Aí seria como diz a outra loura,
Courtney Love, dos cumes da histeria e da paixão: I fake it so real,
I am beyond fake. Mentira é o tempero da verdade.
Sim, o futuro é
luminoso, daí supõe-se a luz final. Se considerarmos a possibilidade da situação alardeada por
lunáticos e astrônomos (heliocêntricos), ambos apontando a extravasão futura do astro-mor, tem- se que o mote passa a literal.
Sendo assim, alguém certamente há de travar o seguinte monólogo / diálogo:
– Está triste?
– É o amor que não lhe assiste.