04/04/2013

A noite traz insetos em seu bojo. A noite traz a orquestra de estalidos, rangidos e fricções que anuncia a escuridão, por sua vez, imagem arquetípica da esfera de alteridade onde o sono repousa através dos séculos. Entro em seu domínio. Passo pelo que se concebe como live action dolphins que abanam suas caudas para levantar uma barreira de lama como armadilha para peixes desavisados. Uma só lufada e babau, foi-se tudo. O crescente da náusea é das dez ao meio-dia, tanto que acordo. O azul toma de assalto a tela do computador, um erro de azul tão peremptório quanto o azul do céu, distante e misterioso. Mas pra onde? Um bar, não dos piores. Chega um sujeito e lança de pronto. Desce uma Sukita! Ao que o barman contesta amavelmente. O estabelecimento tem apenas um pavimento, senhor. O homem acendeu um cigarro para evitar o cheiro das coisas. Uma carpideira veio diretamente de Taiwan para chorar o morto. Ela acabara de realizar o famoso número dos passos-acrobáticos-em-roupas-coloridas quando seu irmão tomou postos ao órgão, que fora de seu pai, falecido na guerra. O instrumento começou a soar encorpado como de costume, a carpideira surgiu vestida de branco para realizar o choro mais conhecido.

O que pode o indivíduo quanto à sorte?

O homem disse que aquele timbre o incomodava, era um fio de cabelo em seu chiclete. Soltou-se num espirro antecipado por um urro de moribundo. Ô rapaz, ouve essa, o cara juntou dinheiro a vida inteira pra comprar um jazigo! Morou de aluguel! Um dia foi buscar umas coisas na padaria e pum, um carro pegou ele. Era novo naquela vizinhança, ninguém soube reconhecer. Era só, ninguém deu por ele. Foi enterrado como indigente! O jazigo? Já tava pago mais do que pela metade.

Um cachorro latia pro nada do lado de fora.

Saiu a caminhar focado no procedimento metabólico que se operava em seu organismo. Distraiu-se com uma concentração tenaz. Tudo ou, mais exatamente, todos se escafederam de uma hora pra outra ou, mais exatamente ainda, num estalo despercebido. Assustou-se pois não era mais do que quinze pras quatro numa quinta-feira em Copacabana. Nem é preciso explicar que é como se o desinteresse num primeiro momento tivesse feito o que, antes ignorado, se ausentasse de fato. Caminhou, caminhou e nada. Da amígdala então fez-se o medo. Seu nome era Carlos Alberto, conhecido por Dois, sendo Carlos Alberto, o pai, o Um, embora ninguém o chamasse por tal. Ouviu certo dia uma criança perguntar por um boneco pelado deitado num x. A criança tomou um tapa para deixar de ser atéia. Dois testemunhou ainda outra do cara da Sukita. Ô rapaz, ouve essa, a coisa mais certa é o tesão no shortinho. Se justo, vê-se o talho do monumento, se folgado, a polpinha da bunda. Dois havia suportado um sono inquieto de bicho grande exposto a borrachudos. Cochilava intermitentemente em pleno balcão de bar, o que desapontou tremendamente o cara da Sukita. Esse cara, que era ele mesmo, pegou seu carro e saiu a buzinar uma buzina abstrata, que não era pro motorista da frente, que não se dirigia ao pedestre, mas ao sistema. O maldito sistema.