30/12/2018

Nos próximos dias, duas missões espaciais farão história. Tudo o que adquirimos através dessa série de experiências nos faz pensar que a sobriedade é uma ferida ao sol. No começo de 2019, a humanidade observará o mundo mais distante já visitado no Sistema Solar. Talvez tenham levado alguns discos pra ouvir, gastar certa onda, que também é importante, não? Talvez tenham cansado de MP3  seja o formato mesmo ou alguma figura de linguagem relacionada ao campo emocional, numa certa situação em que grande parte do espectro é indesejado. No começo de 2019, a humanidade orbitará um asteroide e aterrissará na face oculta da Lua. Alguém poderia suspirar ao recordar de uma composição em que, digamos, o chiaroscuro estivesse colocado generosamente. Ah, mas se não fossem as sombras, beibe, nem tinha nada disso. Assim como os astronautas hipotéticos, quero LPs — pra além da literalidade , todo o espectro de onda. Não, todo não, pode ser demais. E as missões não são tripuladas. Mas de que a gente tem tanto medo de ter medo, não? Há uma forma insidiosa de silêncio que prenuncia a iminência de um coletivo oculto. Ser o que se é não precisa ser o tempo todo pra fora — como se reafirmá-lo tornasse mais concreta a ficção. Além disso, tem-se notícia de que a sonda Osiris-Rex, da NASA, se aproximará do asteroide Bennu e começará a orbitá-lo a apenas um quilômetro e meio da superfície. Pode ser que faça todo aquele vendaval, espalhando toda aquela poeira produzida por sabe-se lá quem. O vento que arrasa. Nunca antes se tentou manobra como essa, que depende da força de microgravidade exercida pela rocha. Será que vai dar certo? Algumas coisas sempre escapam do que se propõe esquadro. Há uma forma de suspiro da memória, algo que acontece quando temos a intuição do que seriam imagens inteiras de outrora, que logo esvaecem. Quando a diferença não transita, porque não pode transitar. Porque o tempo vezenquando racha e ninguém mais sabe pra onde segue. Língua pontuda que condiciona toda uma série de descaminhos ditados pelo descenso. Mas, aqui por dentro, só percebo o se fazer presente das traças e de quase todos os outros bichos da casa, em toda diversidade de estatutos. Percebo a desimportância das traças no interior de algumas narrativas  até certa hostilidade aberta em relação a elas. Veja só, mesmo que seja evidente sua importância na elaboração das paisagens afetivas. Faltou organizar algumas gavetas, é verdade. Guardei uma série de coisas que não sabia se eram preciosidades — não eram. Achei que isso era estar em casa — não era. Bennu pertence ao tipo de asteroide mais antigo do sistema solar. Estima-se que tenha permanecido quase intacto há quatro bilhões de anos, desde que se formou. Mas pode ser que tenhamos ido longe demais, pode ser que não houvesse necessidade de cruzar o Sistema Solar — canyons, chapadas, vales, escarpas alienígenas. Todos esses abismos foram cavados no silêncio mais absoluto, vagarosamente, ao longo de muitas e muitas gerações. Como poderíamos aterrá-los todos de uma vez? Cheguei a vislumbrar  ao longe , mas o fato é que minha semiótica não deu conta. Todos os signos aderiam. No começo de 2019, a mais de seis bilhões de quilômetros daqui, uma outra sonda norte-americana, a New Horizons — hein? , mostrará pela primeira vez Ultima Thule — hein? , o corpo mais longínquo já visitado no Sistema Solar. Esse mundo se encontra para além de Plutão, dentro do cinturão de Kuiper, área que contém milhares de asteroides e trilhões de cometas, estendendo-se até os limites últimos do Sistema Solar. Osiris-Rex, New Horizons, não sei pra que tanta missão. Essa necessidade é bem nossa mesmo.